sábado, 19 de novembro de 2011

A HISTÓRIA DO CHIFRE...




Marcelo Lins

A Caça [1]

A palavra galhudo – cheio de galhos, com muitos galhos – teria seu primeiro registro na língua portuguesa em 1624. O capitão-mor do Recife, senhor do engenho da Muribeca e lexicólogo brasileiro Antonio de Moraes Silva no seu Diccionario da lingua portugueza (Lisboa, 1789), relaciona galhudo como sinônimo de corno - insulto ao marido de mulher mui devassa. No linguajar popular do nordeste a galha da traição transformou-se em gaia.

No norte de Portugal, na margem sul da foz do rio Douro, havia um povoado de origem celta, que quando incorporada ao Império Romano (séc. I A.C.) passou a chamar-se Gale. Os Celtas chamavam a si mesmos Gall de onde derivariam palavras como gaulês, galego Gália e Galícia. A antiga Gale romana tronou-se o atual município de Vila Nova de Gaia, no Distrito do Porto.

A esta altura está a se perguntar o que tem alhos com bugalhos? Tirado a coincidência na grafia das palavras. Bem… Nada!. Ou melhor… quase nada…

A história de Vila Nova de Gaia está ligada a uma da mais populares histórias de traição da literatura portuguesa medieval, a Lenda de Gaia. Reza a lenda, que por volta do século X, as terras ao sul do Douro até Santarém eram governadas pelo emir Alboazer Alboçadam. Ao norte, ficava o reino cristão das Astúrias (ou de Leão) do Rei D. Ramiro. Num encontro de negócios, o emir mulçumano acompanhado de sua irmã Zahara., cuja beleza atraiu a atenção do rei cristão, que rejeitado pela jovem moura, decide raptá-la. Do outro lado, Alboazer corteja a bela rainha cristã Gaia. Ao tomar conhecimento do envolvimento do rei com Zahara, a rainha Gaia decide fugir com o emir.

Ferido em seu orgulho, D. Ramiro decide atacar o alcácer (castelo) do Alboazer, na margem do Douro, onde refugiam-se o casal de amantes. Ramiro entra secretamente no castelo disfarçado de mendigo e através de uma das servas de Gaia consegue chegar até a rainha. Esta, denuncia a presença do marido ao amante, que sentencia o rei de Leão à morte. Usando de astúcia, o rei convence o mouro a abrir as portas do castelo para que toda a população pudesse assistir a sua execução e obrigá-lo a subir na torre mais alta da muralha e tocar uma corneta até se rebentar. Não sabendo que este era o sinal acordado por D. Ramiro para que seu exército ataca-se o castelo. A rainha Gaia, levada a força por seu marido, lança o seu olhar para o castelo na margem oposta, onde ficou o seu amado, morto. O Rei pergunta. – Porque miras (olhar)? Porque choras?

Perguntas-me porque choro!
Traidor rei, que hei-de chorar?
Que o não tenho nos meus braços,
Que a teu poder vim parar.
Perguntas-me o que miro!
Traidor rei, que hei-de eu mirar?
As torres daquele alcaçar,
Que ainda estão a fumegar.
Se eu ali tão ditosa,
Se ali soube o que era amar,
Se ali me fica alma e vida…
Traidor rei, que hei-de eu mirar!
Pois mira, Gaia! E dizendo
Da espada foi arrancar:
Mira, Gaia, que esses olhos
Não terão mais que mirar.
Foi-lhe a cabeça dum talho
E, com o pé, sem olhar,
Borda fora empurra o corpo…
O Douro, que os leve ao mar![2]

O brasão da Vila Nova de Gaia apresenta como símbolo um homem tocando uma corneta no alto de uma torre, numa clara referência à Lenda de Gaia. História de um machismo retrógado e arcaico que infelizmente ainda se faz presente no nosso cotidiano. A história do pusilânime Rei Galhudo que matou covardemente a bela Rainha Gaia, mas não apagou a gaia que lhe ficou no lugar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário