sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

OS BONS CONSELHOS...POR BERNARDO CELESTINO PIMENTEL.





          AINDA HOJE SINTO FALTA DOS CONSELHOS DE MEU PAI...
          COMO A SUA EXPERIENCIA VIA COISAS QUE OS MEUS OLHOS DE CRIANÇA NÃO ENXERGAVAM E NEM ACREDITAVAM...
          DEPOIS, COM O TEMPO, CONSTATEI TUDO O QUE O MEU VELHO DIZIA...O QUE EU ACHAVA QUE ERA ABSURDO ERA A MAIS PURA VERDADE...
          UM BOM PAI É ALGO INSUBSTITUÍVEL, E BASTANTE MAL COMPREENDIDO NA MAIOR PARTE DA CONVIVENCIA COM OS FILHOS...O REAL VALOR DO PAI QUEM ENSINA É O MESTRE MUNDO, É O TEMPO,QUANDO AS FLORES SE DESPETALAM SANGRANDO Á VIDA...
          CHEGA UM TEMPO QUE TUDO VEM COM FACILIDADE, INCLUSIVE A MORTE...HOJE ESCUTEI UMA FRASE MUITO INTERESSANTE, APÓCRIFA:NÃO ME RESSUSCITEM QUANDO EU MORRER...EU PREFIRO PARTIR EM PAZ...TALVEZ TENHA SIDO A FRASE DO ANO...É A CONSCIENCIA DO CICLO VITAL: NASCER, CRESCER E MORRER...
          JÁ SEU TÔTÔ DIZIA:AH PAULO BEZERRA...COMO ERA BOM SE A MORTE ENGOLISSE BOLA...ELE QUE NADAVA EM DINHEIRO NUNCA MORRERRIA.
          ME DEDICO MUITO A ESCUTAR OS POETAS...HOJE ESCUTEI DOIS POETAS:VINICIUS DE MORAES E  O MAESTRO FRANCIS HIME...AMBOS FALAM DOS CONSELHOS DO PAI PARA O FILHO...MAS COM O TEMPO, O FILHO FICA VELHO E O PAI VIRA CRIANÇA, E A ORDENS DOS CONSELHOS SE INVERTEM...
          HOJE, JÁ SINTO A NECESSIDADE DE ESCUTAR O QUE DIZEM AS MINHAS CRIAS, A MEDIDA QUE ME APROXIMO DA MINHA PRÓXIMA INFÃNCIA...ELES USAM ATÉ OS MEUS ARGUMENTOS ANTIGOS PARA ME CONVENCEREM DE CERTAS VERDADES...A GENTE PENSA QUE ELES ATÉ ESQUECERAM DO QUE FALÁVAMOS...PURA ILUSÃO...UM BOM PAI É UM ETERNO PROFESSOR...UMA BOA CRIAÇÃO É TUDO...O EXEMPLO É UMA ESCULTURA NA ALMA DO FILHO.
          OS CONSELHOS DO PAI SE INICIAM MUSICALMENTE NOS ACALANTOS, MAS O MAESTRO FRANCIS HIME FALA NO DESACALANTO, QUE É O FILHO ACORDANDO O VELHO PAI, É QUANDO A ORDEM DOS CONSELHOS SE INVERTEM...
          O POETA VINICIUS DE MORAES CONVERSA COM A MENINA DAS DUAS TRANÇAS, PROTEGENDO O SEU FILHO...O FILHO TAMBÉM CONVERSA COM A MESMA MENINA PARA PROTEGER O PAI...
          ESCUTEM ESTAS CANÇÕES E SINTAM A BELEZA DOS CONSELHOS, QUE NASCEM DO EU PROFUNDO E FRUTIFICAM POR TODA VIDA,E INDEPENDEM DA PRIMAVERA OU DO VERÃO.
          OS BONS CONSELHOS  SÃO ESTAÇÕES QUE SÓ POSSUEM OUTONO,ONDE OS FRUTOS SÃO PERENES...
          A FELICIDADE É O ESPINHO QUE NÃO SE VÊ EM CADA FLOR...



GENTE QUE A GENTE NEM VÊ POR QUE É QUASE NADA...


O DESABAFO DE UM EXCLUÍDO

por Carlos Aires
Eu sou um pobre excluído
Que vive vagando a esmo
A perguntar a mim mesmo
Porque é que sou assim?
Só vejo ao redor de mim
Tristeza fome e miséria
Vivo escutando pilhéria
Taxado de vagabundo
Só ando sujo e imundo
Morrendo de sede e fome
Sem moradia, sem nome,
Sendo a escória do mundo.
Os que me encontram na rua!
Veem-me como um desafeto,
Um andarilho, um sem teto,
Um Zé Ninguém, um errante.
Apressado, segue adiante,
Frio, apático, indiferente,
Desprezando o indigente,
Sofredor desalentado
Que na sarjeta é jogado
Sem dó e sem piedade
E pela sociedade
É esquecido, ignorado.
Meus dias são torturantes
E as noites são infelizes,
Busco abrigo nas marquises
Evitando a chuva e o vento.
Pra não dormir ao relento
Eu improviso um colchão
Com um velho papelão
Que alguém já não quis mais,
Umas folhas de jornais
Servem-me de cobertura
E nessa cruel tortura
Adormeço entre os meus ais.
Outro momento irritante
É quando o dia amanhece
Que a fome logo aparece
E na barriga persiste
Nada pode ser mais triste
E nem mais angustiante
É realmente humilhante
A tétrica situação
Em busca de solução
Eu passo a manhã inteira
E nos despejos da lixeira
Pego migalhas de pão.
Num lamentável flagelo
Perdurando eu sobrevivo
E não encontro motivo
Para comemorações
Pois quem vive nos lixões
De maneira lastimável
É só mais um miserável
Um odioso, um nefando,
Que ao léu vive vagando
Sem regozijo ou prazer
E o fim desse padecer
Só Deus é quem sabe quando.
Não vou colocar a culpa
No cidadão que é honesto
Simples, humilde, modesto,
Que vive corretamente,
Mais sim no inconsequente
Do político salafrário
Que faz com que nosso erário
Vire suborno e propina
Na calada e em surdina
Sempre agindo a sangue frio,
Saquear, fazer desvio,
Pra ele virou rotina.
Enquanto isso o sem teto,
Sem comida, sem abrigo,
Na condição de mendigo
Vive implorando uma esmola
Sem frequentar a escola
Não passa de um iletrado
Esquecido, abandonado,
Malvisto, é sempre um suspeito,
Que nunca será aceito
Pelo farto ou abastado.
E sempre que é abordado
É vitima de preconceito.
Com esse meu desabafo
Não quero ferir ninguém
Porém, o que nada tem,
Sofre descriminação
Mesmo sendo um cidadão
Tem seu direito negado
Sempre será rejeitado
Pela aristocracia
Pois essa lhe deprecia
Achando que é excremento
Um crápula, um mau elemento,
Sem recato e sem valia.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

CONHEÇA NELSON RODRIGUES...


Nelson Rodrigues (1912-1980)
POR JOSÉ DOMINGOS BRITO
Nasceu no Recife em 23/08/1912. Jornalista, cronista, romancista e dramaturgo, é considerado o iniciador do teatro moderno brasileiro. Aos quatro anos a família se muda para o Rio de Janeiro, para se juntar ao pai Mario Rodrigues, deputado federal e jornalista que deixou o Recife indisposto com os políticos tradicionais. Aos sete anos pediu à mãe para entrar na escola, onde no ano seguinte participou de um concurso de redação. O tema era livre e o melhor trabalho seria lido na classe. A professora quase desmaiou ao ver sua redação: era uma história de adultério. Na infância suas leituras eram de adulto, romances onde a temática era uma só: a morte punindo o sexo ou o sexo punindo a morte.
Aos 13 anos “botou calças compridas” para trabalhar como repórter de polícia no jornal de seu pai “A Manhã”, onde também trabalhavam alguns de seus 13 irmãos. No jornal manteve contatos com colaboradores ilustres: Monteiro Lobato, Agripino Grieco, Ronald de Carvalho, José do Patrocínio, Aparício Torelly, Mauricio Lacerda etc. O jovem jornalista impressionou os colegas com sua facilidade em dramatizar pequenos acontecimentos. Ágil na escrita, logo ganhou uma coluna assinada e publica seu primeiro artigo em fevereiro de 1928. O título era “A tragédia da pedra…” com as famosas reticências que lhe acompanharam em tantos outros artigos. Depois exercitou seu lado sombrio com a crônica “O rato…”, onde descreve a morte de um rato atropelado por um carro. Em seguida começa a “bater” em Ruy Barbosa, para desespero de seu pai. No segundo artigo esculhambando a “Águia de Haia”, perdeu a coluna e foi rebaixado para a seção de polícia. O jornal, mal administrado e cheio de dívidas é vendido ao sócio. Pouco depois, seu pai lançou um novo jornal “Crítica”, em fins de 1928, que fez muito sucesso com uma circulação de 130 mil exemplares.
Nesta ocasião dá-se o assassinato de Carlos Pinto, repórter do jornal “A Democracia”. Correu a notícia que o mandante do crime foi um dos Rodrigues, e a policia prende todos eles: pai, mãe e os filhos. Nelson escapou porque estava no Recife, passando uma temporada para se livrar de uma depressão. Junto aos primos conheceu o Recife, Olinda, Boa Viagem e a zona do Cais do Porto, tida como a maior da América do Sul. Sua prima Netinha, com mantinha um namoro por carta quando estava no Rio, tirou-o da depressão e ele voltou para a redação do jornal “Crítica”. Em 26 de dezembro de 1920 o jornal estava sem assunto para a primeira página e Mario Rodrigues estampou o desquite de um casal famoso: Sylvia e José Thibau. No outro dia Sylvia entra na redação procurando o editor. Não encontrando-o pede para falar com seu filho Roberto e dá-lhe um tiro. Nelson, com 17 anos, estava ao lado e assistiu a cena. A família ficou traumatizada com a morte violenta.
Dois meses após, Mario Rodrigues sofre uma trombose cerebral e falece aos 44 anos. Como diz o ditado que “desgraça pouca é bobagem” estoura a Revolução de 30. Em 24 de outubro o Governo é deposto e todos os jornais do velho regime foram invadidos e empastelados. Pouco depois voltaram a circular, exceto “Crítica” o jornal dos Rodrigues. A família inteira passou um perrengue que durou uns meses, até que surgiu uma oportunidade. Em 1931 Roberto Marinho convida seu irmão Mario Filho (que dá nome ao Estádio do Maracanã) para assumir a página de esportes do jornal “O Globo”. Em 1932 Nelson, também, é contratado com um ordenado de 500 mil réis por mês. Com uma vida desregrada e fumando muito, pegou uma tuberculose e ficou 14 meses, entre 1934-1935, internado em Campos de Jordão, para onde retornaria outras vezes.
Casou com Elza Bretanha, também jornalista d’O Globo, com quem namorava há 2 anos, em 1940 sem avisar as famílias, e foi morar no Engenho Novo. Era a volta ao subúrbio levando uma vida de penúria. Um dia, ao passar em frente ao Teatro Rival, viu uma enorme fila para assistir A família Lerolero, de Raimundo Magalhães Júnior, e ouviu o comentário: “Esta chanchada está rendendo os tubos”. Parou e pensou: por que não escrever teatro? Em meados de 1941 é concluída sua primeira peça: A mulher sem pecado, que só foi encenada no fim de 1942. Não foi um sucesso de público, mas alguns críticos elogiaram. No ano seguinte, escreve Vestido de noiva e distribui cópias entre os jornalistas, críticos e amigos. Manuel Bandeira elogiou e, com este aporte, conseguiu elogios em quase todos os jornais. Mas falavam que a peça era muito complexa, que exigia um cenário de alto custo; portanto dificilmente alguém se proporia a encená-la. Até que a peça caiu nas mãos de Zbignew Ziembinski, um ator e diretor polonês recém-chegado ao Brasil. “Não conheço nada no teatro mundial que se pareça com isso”, foi o comentário de Ziembinski.
A partir daí começa a ficar famoso, odiado e amado pela crítica e pelo público. Porém, ainda com dificuldades financeiras e procurando outro emprego. Em 1945, através de David Nasser, é apresentado a Freddy Chateaubriand, da revista “O Cruzeiro”. Passa a trabalhar na revista com um salário de cinco mil cruzeiros, sete vezes mais do que ganhava n’O Globo. Assume o cargo de diretor de redação das revistas “Detetive” e “O Guri”. Depois soube que Freddy Chateaubriand estava querendo um folhetim para levantar a tiragem d’O Jornal. Ele se ofereceu para escrevê-lo e assim nasceu “Suzana Flag”, o pseudônimo que assinava a novela Meu destino é pecar. O folhetim alavancou as vendas do jornal e tornou-se um livro, cuja venda ultrapassou 300 mil exemplares. Isto estimulou-o a escrever outro folhetim: Escravas do amor, outro retumbante sucesso.
Sua terceira peça – Álbum de família – surge em 1946. A peça, com o incesto como tema central, foi proibida pela censura e só foi liberada 19 anos depois, em 1965. Nos anos seguintes teve suas peças interditadas pela censura, passou a ser sinônimo de obsceno e tarado e ficou conhecido como autor maldito. Ainda em 1946 aproveitou o sucesso de “Suzana Flag”, publicando sua “autobiografia”, intitulada Minha vida e foi outro sucesso de vendas. Evidentemente não era do conhecimento do público que se tratava de um pseudônimo. Em 1948 estréia mais uma peça: Anjo negro, gerando mais polêmica e consagrando-o como “maldito”. Seguem-se Senhora dos afogados (1948) e Dorotéia (1949).
Fanático torcedor do Fluminense, foi um grande cronista esportivo, ao mesmo tempo que escrevia reportagens policiais e folhetins romanescos. Em 1950 passou a trabalhar no jornal “Última Hora”. O dono do jornal, Samuel Wainer, propôs que ele escrevesse, com pagamento extra, uma coluna diária tratando de um fato qualquer, mas que fosse real. O título proposto foi Atire a primeira pedra. Nelson não gostou e propôs outro: A vida como ela é. Tal como nos folhetins anteriores, foi um grande sucesso que ajudava bastante a vender o jornal nas bancas. No ano seguinte, e aproveitando o sucesso dos folhetins, relançou Suzana Flag em O homem proibido. Sem sombra de dúvida foi a autor de romances de maior sucesso, publicados na forma de folhetins em jornais.
Em 1953 estreia no Teatro Municipal “A falecida” uma comédia chamada de “tragédia carioca” para atrair o público. Por esta época sua vida financeira já estava bem equilibrada ao ponto de manter outra família. Manteve um romance com Yolanda que durou cinco anos e lhe rendeu três filhos, que ele não reconheceu como seus. Para melhorar a situação financeira, a família Rodrigues ganha, em 1955, uma ação contra o Governo de indenização pela destruição do jornal “Crítica” e recebem uma boa bolada. Nelson compra um apartamento em Teresópolis e um carro para a mulher, a legítima. Esse período de prosperidade durou pouco. Teve um problema de vesícula e após a operação de alto risco ficou três meses sem publicar suas colunas nos jornais. A coluna publicada em “A Manchete Esportiva” foi interrompida de novembro de 1958 a março de 1959.
Em seguida cria outro personagem de folhetim, mais um sucesso: Engraçadinha, que entreteve os leitores da “Última Hora” até fevereiro de 1960. Depois, repetindo o sucesso que teve com Suzana Flag, foram publicados dois livros biográficos: Engraçadinha – seus amores e seus pecados dos doze aos dezoito e Engraçadinha – depois dos trinta. Certo dia conheceu um motorista de ônibus, malandro exibido que tinha todos os dentes de ouro. Ele misturou o cara com outro conhecido, o bicheiro carioca Arlindo Pimenta, e criou o personagem “Boca de ouro”. Como nas peças anteriores, tem problemas com a censura, mas fez grande sucesso em 1961, com Milton Moraes no papel principal.
Surge nova amante, mulher casada que logo se separa do marido, e dois anos depois ele também separa-se de Elza. O fato causou comoção entre os amigos Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Claudio Mello e Souza, pois a esposa Elza chegou a tentar suicídio. Pode-se dizer que ele viveu uma “tragédia Rodrigueana” na própria pele. A nova esposa deu um trato em sua aparência, e logo começou a participar do programa esportivo “Grande resenha Facit”, da TV Rio, dirigido por Walter Clark. Era o primeiro programa tipo mesa-redonda da televisão brasileira. Isto não o impedia de continuar com suas peças: Beijo no asfalto (1960), Bonitinha, mas ordinária (1962), Toda nudez será castigada (1965) etc. Algumas delas passaram para a tela do cinema. Sua penúltima peça – Anti-Nelson Rodrigues – foi encenada em 1973, com direção de Paulo César Pereio. A última foi A serpente, escrita em 1979. Quase todas elas vêm sendo encenadas até hoje.
O início da década de 1970 marca também os “anos de chumbo” da ditadura. Nelson mantinha um relacionamento com alguns militares. Precisou deles para tirar seu filho Nelsinho, preso politico, da cadeia. Conseguiu com o presidente Médici um indulto para que ele saísse do País, mas Nelsinho não aceitou o privilégio. Sua fama de reacionário no meio politico não eram menor que a de “maldito” ou “pornográfico”. Não obstante isso, batalhou para para localizar e libertar alguns amigos, entre eles Hélio Pellegrino e Zuenir Ventura. Em 1974 a saúde se complica de novo. É operado de um aneurisma da aorta. Apesar da proibição médica, voltou a fumar. Em 1977 é novamente internado com uma arritmia ventricular grave e insuficiência respiratória. Em tais condições, consegue que a esposa Elza volte para casa. Bem antes disso já andavam se encontrando quase todas as noites no restaurante “O bigode de meu tio”, na Vila Isabel. Em fins do mesmo ano, com a saúde abalada, reuniu algumas crônicas e publicou seu último livro: O reacionário: memórias e confissões. Mesmo doente, aceitou um convite para fazer o lançamento numa livraria em Florianópolis. Como não viajava de avião, foram 15 horas de carro junto com uma irmã, que lhe servira como enfermeira. Passou a tarde inteira sentado ao lado de uma pilha de livros, de caneta em punho, aguardando a chegada dos interessados num autógrafo. Não apareceu ninguém, nenhum livro foi vendido naquela tarde.
A viagem de volta foi marcada por um silêncio constrangedor, o qual marcou seus últimos anos de vida. Faleceu em 21/12/1980, manhã de domingo. Naquele mesmo dia fez 13 pontos na Loteria Esportiva, num “bolão” junto com seus amigos do jornal “O Globo”. À tarde a seleção brasileira jogava contra a Suíça, em Cuiabá. No meio da partida, o Brasil inteiro assistiu pela TV o juiz Arnaldo César Coelho interrompendo o jogo com um minuto de silêncio para homenagear o grande dramaturgo.

A POESIA DE CARLOS PENNA FILHO...


A SOLIDÃO E SUA PORTA – Carlos Pena Filho



Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha)
Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha
Arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida
Com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

LITERATURA DE CORDEL...


TROVAS DE GERALDO AMÂNCIO

“Não erra 

aquele que almeja
Possuir bem, progredir,
Talvez o pecado seja
O não saber possuir.”
“O amor toma tempo, tanto
Que o próprio tempo não soma,
Seja eterno ou por enquanto,
Vale o tempo que nos toma.”
“Existem menos defeitos,
Mais justiça e menos danos,
Entre os humanos direitos
Que nos direitos humanos.”
“Criador das unidades,
Porto de infinito cais,
Raiz das pluralidades,
Deus é isso e muito mais.”
“Quando o prepotente desce
Ao sepulcro onde se instala,
Seu próprio orgulho apodrece,
Sua arrogância se cala.”
“Metade da humanidade
Infelizmente não come;
E não dorme a outro metade,
Temendo os que passam fome!”
“Eu pouco penso em morrer.
A morte não me estarrece;
O meu medo é não saber
Depois dela o que acontece!”
“Sono de velho parece
Mulher descompromissada,
Que chega quando anoitece,
Mas foge de madrugada.”
* * *
Geraldo Amâncio Pereira é poeta, repentista, trovador, cordelista e contador de causos. Nascido no sítio Malhada da Areia, município do Cedro,Ceará, em 29 de abril de 1946. Cursou faculdade de História em Fortaleza. Começou com acompanhamento de viola em 1966. Participou de centenas de festivais em todo o país, e classificou-se mais de 150 vezes em primeiro lugar. Organizou festivais internacionais de repentistas e trovadores, além do festival Patativa do Assaré. É autor das três antologias sobre cantoria em parceria com o poeta Vanderley Pereira. Gravou 15 CDs ao longo da carreira, além de ter publicado cordéis em livros. Apresentou o programa dominical “Ao Som da Viola”, na TV Diário em Fortaleza.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

MENTIRAS VERDADEIRAS...

*TRINTA MENTIRAS VERDADEIRAS:*


*1. ADVOGADO*: – Esse processo é rápido.
*2. AMBULANTE*: – Qualquer coisa, volta aqui que a gente troca.
*3. ANFITRIÃO*: – Já vai? Ainda é cedo!
*4. ANIVERSARIANTE*: – Presente? Sua presença é mais importante.
*5. BÊBADO*: – Sei perfeitamente o que estou dizendo.
*6. CASAL SEM FILHOS*: – Visite-nos sempre; adoramos suas crianças.
*7. CORRETOR DE IMÓVEIS*: – Em 6 meses colocarão: água, luz e telefone.
*8. DELEGADO*: – Tomaremos providências.
*9. DENTISTA*: – Não vai doer nada.
*10. DESILUDIDA*: – Não quero mais saber de homem.
*11. DEVEDOR*: – Amanhã, sem falta!
*12. ENCANADOR*: – É muita pressão que vem da rua.
*13. FILHA DE 17 ANOS*: – Dormi na casa de uma colega.
*14. FILHO DE 18 ANOS*: – Antes das 11 estarei de volta.
*15. GERENTE DE BANCO*: – Temos as taxas mais baixas do mercado.
*16. INIMIGO DO MORTO*: – Era um bom sujeito.
*17. JOGADOR DE FUTEBOL*: – Vamos reverter a situação no próximo jogo. (hummmm !!!!)
*18. LADRÃO*: – Isso aqui foi um homem que me deu.
*19. MECÂNICO*: – É o carburador.
*20. MUAMBEIRO*: – Tem garantia de fábrica.
*21. NAMORADA*: – Pra dizer a verdade, nem beijar eu sei.
*22. NAMORADO*: – Você foi a única mulher que eu realmente amei.
*23. NOIVO*: – Casaremos o mais breve possível!
*24. ORADOR*: – Apenas duas palavras…
*25. POBRE*: – Se eu fosse milionário ajudava todo mundo.
*26. RECÉM-CASADO*: – Até que a morte nos separe.
*27. SAPATEIRO*: – Depois alarga no pé.
*28. SOGRA*: – Em briga de marido e mulher não me meto.
*29. VAGABUNDO*: – Há 3 anos que procur
o trabalho mas não encontro.
*30. AMIGAS NO FACEBOOK*: Linda!

VELUDO...


VELUDO...

História de um cão
Luiz Guimarães

Eu tive um cão. Chamava-se Veludo.
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
para dizer numa palavra tudo,
foi o mais feio cão que houve no mundo.
Recebi-o das mãos dum camarada.
Na hora da partida, o cão gemendo,
não me queria acompanhar por nada.
Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.

O meu amigo cabisbaixo, mudo,
olhava-o... O sol nas ondas se abismava...
"Adeus!" - me disse, e ao afagar Veludo
nos olhos seus o pranto borbulhava.
"Trata-o bem. Verás como rasteiro
te indicará os mais sutis perigos.
Adeus! E que este amigo verdadeiro
te console no mundo ermo de amigos."

Veludo, a custo, habituou-se à vida
que o destino de novo lhe escolhera;
sua rugosa pálpebra sentida
chorava o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
febril, convulso, trêmulo, agitando
a sua cauda, caminhava errante,
à luz da lua - tristemente uivando.

Toussenel, Figuier e a lista imensa
dos modernos zoológicos doutores,
dizem que o cão é um animal que pensa.
Talvez tenham razão estes senhores.
Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
cinco meses depois, do meu amigo,
um envelope fartamente cheio.
Era uma carta. Carta! Era um artigo,

contendo a narração miuda e exata
da travessia. Dava-me importantes
notícias do Brasil e de La Plata,
falava em rios, árvores gigantes,
gabava o steamer que o levou; dizia
que ia tentar inúmeras empresas.
Contava-me também que a bordo havia
mulheres joviais - todas francesas.

Assombrara-se muito da ligeira
moralidade que encontrou a bordo.
Citava o caso d'uma passageira...
Mil coisas mais de que me não recordo.
Finalmente, por baixo disso tudo,
em nota breve do melhor cursivo
recomendava o pobre do Veludo,
pedindo a Deus que o conservasse vivo.

Enquanto eu lia o cão, tranquilo e atento,
me contemplava, e - creia que é verdade,
vi, comovido, vi nesse momento
seus olhos gotejarem de saudade.
Depois lambeu-me as mãos, humildemente,
estendeu-se a meus pés silencioso
movendo a cauda, - e adormeceu contente,
farto d'um puro e satisfeito gozo.

Passou-se o tempo. Finalmente, um dia,
vi-me livre daquele companheiro.
Para nada Veludo me servia...
Dei-o à mulher d'um velho carvoeiro.
E respirei! "Graças a Deus! Já posso",
dizia eu, "viver neste bom mundo,
sem ter que dar, diariamente, um osso
a um bicho vil, a um feio cão imundo".

Gosto dos animais, porém prefiro
a essa raça baixa e aduladora,
um alazão inglês, de sela ou tiro,
ou uma gata branca cismadora.

Mal respirei, porém! Quando dormia
e a negra noite amortalhava tudo
sentí que à minha porta alguem batia.
Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
farejou toda a casa satisfeito
e, de cansado, foi rolar dormindo
como uma pedra, junto do meu leito.

Praguejei furioso. Era execrável
suportar esse hóspede importuno
que me seguia como o miserável
ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
dizê-lo em alta voz e confessá-lo.
Para livrar-me desse cão leproso
havia um meio só: era matá-lo.

Zunia a asa fúnebre dos ventos;
ao longe o mar, na solidão gemendo,
arrebentava em uivos e lamentos...
De instante em instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto,
a fremente borrasca me arrancava
dos frios ombros o revolto manto,
e a chuva meus cabelos fustigava...

Despertei um barqueiro. Contra o vento,
contra as ondas coléricas vogamos.
Dava-me força o torvo pensamento.
Peguei num remo e com furor remamos.
Veludo, à proa, olhava-me choroso
como o cordeiro no final momento.
Embora! Era fatal! Era forçoso
livrar-me, enfim, desse animal nojento.

No largo mar ergui-o nos meus braços
e arremessei-o às ondas,de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos,
lutando contra a morte. Era pungente.
Voltei à terra, entrei em casa. O vento
zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
de Veludo nas ondas moribundo.

Mas ao despir, dos ombros meus, o manto,
notei - oh grande dor! - haver perdido
uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
contra o meu coração, constantemente,
e o conservava no maior recato,
pois minha mãe me dera essa corrente,
e, suspenso à corrente, o seu retrato.

Certo caira além, no mar profundo,
no eterno abismo que devora tudo.
E foi o cão, foi esse cão imundo
a causa do meu mal! Ah, se Veludo
duas vidas tivera, duas vidas
eu arrancara àquela besta morta
e àquelas vís entranhas corrompidas.
Nisto sentí uivar à minha porta.


Corrí, abri... Era Veludo! Arfava.
Estendeu-se a meus pés e docemente,
deixou cair da boca que espumava
a medalha suspensa da corrente.
Fora crível, oh Deus? Ajoelhado
junto do cão, estupefato, absorto,
palpei-lhe o corpo: estava enregelado.
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.