quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O CASAL VINTE DA MEDICINA...DRA. ANGELITA GAMA.



Os currículos dos médicos Angelita e Joaquim Gama impressionam. A
começar pelo número de páginas: 233 o dela e 291 o dele. São centenas
de títulos, prêmios e publicações científicas. A primeira linha chama
especialmente atenção. Na sequência dos nomes de cada um, aparecem as
cidades onde nasceram, o estado civil e, o que não é comum, com quem
se casaram. É com orgulho que estampam ali a união de 45 anos. Nas
cinco décadas de profissão, os dois cirurgiões do aparelho digestivo -
ele especializado em estômago, ela, em intestino - computam 67 300
pacientes, alguns famosos como Tancredo Neves, Marta Suplicy e Adriane
Galisteu. Atendem numa confortável clínica no bairro do Ibirapuera, a
cinco minutos do apartamento de 400 metros quadrados onde moram. Entre
os cobiçados títulos que têm em comum, estão o de professor titular da
Faculdade de Medicina da USP e o de membro do American College of
Surgeons, um dos mais importantes conselhos de cirurgiões dos Estados
Unidos.
Aos 70 e poucos anos, a paraense Angelita e o paulista Joaquim levam
uma rotina de recém-formados. Dormem cerca de seis horas por noite,
levantam-se antes das 7 e, cerca de três vezes por semana, batem ponto
nos centros cirúrgicos de alguns dos maiores hospitais da cidade -
eles fazem parte do corpo clínico do Oswaldo Cruz, no Paraíso.
Trabalham por doze horas seguidas e ainda têm pique para nos convidar
para jantar no fim do expediente, conta a publicitária Cristina
Partel, amiga do casal. Vaidosa, Angelita combina esmalte e batom
vermelhos com terninhos Armani. Troca os sapatos de salto por um par
de calçados Crocs brancos durante as cirurgias, quando veste aquele
desengonçado figurino azul exigido nos procedimentos. Ela já perdeu
seis alianças no bolso de uniformes, conta Joaquim. Há vinte anos,
desistimos e não usamos mais .
Em ação, debruçada sobre o corpo do paciente anestesiado, ela não
fala, sussurra ao pé do ouvido dos dois assistentes. E não admite
barulho.Vira e mexe levo bronca porque estou falando alto, conta
Rodrigo Perez, que há catorze anos trabalha com o casal Gama. Manipula
vísceras, bisturis, pinças e grampos, derramando pouquíssimo sangue. ‘
Seus movimentos são muito precisos e ela tem um conhecimento
excepcional de anatomia, por isso faz um trabalho tão limpo,
derrete-se em elogios o marido. Costuma terminar as cirurgias com a
frase: Melhor é impossível, título do filme estrelado por Jack
Nicholson que ela adora. Especialista em doenças do intestino,
principalmente câncer, ela realiza até 42 cirurgias por mês -cobra
entre 15 000 e 30 000 reais por uma delas, de hemorroidas a tumores
malignos, fora os gastos com anestesista, assistentes e
instrumentadores (a primeira consulta custa 500 reais). Conhecida por
ter uma personalidade forte, Angelita é daquelas que não economizam
nas broncas e as começa assim: Dois pontos... Em seguida, lista tudo o
que fizeram ao contrário de suas ordens. Esporadicamente, Angelita e
Joaquim operam juntos - ele faz vinte cirurgias por mês (seus
honorários para a retirada de uma vesícula, por exemplo, variam de 5
000 a 10 000 reais). Num sábado em que a médica tem cirurgia e ele
não, Joaquim a leva até o hospital e fica aguardando no
estacionamento, lendo no carro. O mesmo acontece quando ela vai ao
shopping. Adoro fazer compras, mas sou prática e resolvo tudo logo,
diz Angelita.
Essa cumplicidade começou na universidade. Conheceram-se no tempo de
estudantes, mas, em 1964, tiveram a oportunidade de ficar mais
próximos ao fazer parte da equipe de Alípio Corrêa Netto, na
disciplina de cirurgia geral, na USP. Na época, Angelita já se
destacava entre seus colegas: tinha sido a primeira mulher residente
de cirurgia na universidade e a primeira a estagiar na área no
Hospital St. Mark?s, na Inglaterra, em 1961. Poderia ter escolhido
qualquer outra área, a ginecologia, por exemplo, como fazia a maior
parte de minhas colegas, conta. Mas o ato cirúrgico me encantou e fui
incentivada por meus professores, que perceberam meu talento. Um
deles, Arrigo Raia, aos 97 anos, orgulha-se do sucesso dos discípulos.
Eles estavam entre os meus alunos de maior destaque, lembra. Angelita
chamava muita atenção porque é aguerrida como um búfalo. Incomodava
seus colegas, sobretudo por ser mulher, mas isso nunca foi um
impedimento para ela.
Joaquim não era um deles. Ao contrário de muitos homens, sempre fez
questão de enaltecer as conquistas da Angelita, diz a arquiteta Maria
Pia Barreira Marcondes, casada com um dos sobrinhos dele. Embora tenha
o mesmo nível profissional e acadêmico dela, se puder dar um passo
atrás para que Angelita apareça mais, ele dá. Com orgulho, o médico
conta que havia dez candidatos às duas vagas abertas para a cadeira de
cirurgia geral chefiada por Alípio Corrêa Netto em 1964. Nós dois
fomos aprovados, mas ela ficou em primeiro lugar, afirma. Casaram-se
no dia 10 de dezembro daquele ano, dez meses depois de começar o
namoro. Já havia um envolvimento anterior, mas o trabalho em equipe
funcionou como um catalisador, acredita Joaquim. A festa, com a
presença de grandes nomes da medicina, como Edmundo Vas¬concelos e
Arrigo Raia, além de Corrêa Netto, que conduziu Angelita ao altar, foi
no Clube Pinheiros, lugar que frequentam até hoje.
Ali, ela costumava jogar vôlei, esporte ao qual se dedicou desde a
adolescência, quando fundou o Clube Adamus. Só parou em 1996, ao
quebrar o fêmur numa queda. Nem assim deixou de operar. Quinze dias
após o acidente, já estava no centro cirúrgico fazendo procedimentos
simples sentada sobre uma cadeira. O casal também não gosta de
interromper o trabalho para férias prolongadas. Eles viajam apenas no
fim do ano, entre o Natal e o réveillon. No último 25 de dezembro,
foram a Miami. Voltaram no dia 31 porque um paciente dela passou mal.
Ele, que tinha um curso marcado nos Estados Unidos para os primeiros
dias de janeiro, veio até aqui, deixou Angelita em casa, tomou um
banho e voltou para o aeroporto. Tudo para que ela não comemorasse
sozinha a virada do ano no avião, diz a amiga Cristina Partel.
Por causa da rotina apertada, costumam chegar em casa por volta das 23
horas. Quando abrem a porta e acendem a luz, logo são recebidos por um
miado. É de um gatinho posicionado sob o console da entrada, peludo,
branco e... de brinquedo. Angelita e Joaquim não têm animais de
estimação nem muitas plantas. Compensam a falta de filhos convivendo
com a família numerosa - ao todo, são 28 sobrinhos e sobrinhos-netos.
Decidiram não ter filhos pensando no sucesso profissional dela. Na
época, quem se tornava mãe tinha de interromper a carreira. Não estava
disposta a isso e não me arrependo. Nos últimos anos, a médica vem se
dedicando também às campanhas de prevenção do câncer de intestino. É
fundadora da Associação Brasileira de Prevenção do Câncer de Intestino
(Abrapreci) e, para divulgar a causa, mandou construir intestinos
gigantes, com 17 metros de comprimento, que são usados em exposições.
Um deles está no museu Catavento, no Palácio das Indústrias. Não
abandona a militância nem em conversas de elevador. No último encontro
com o vizinho do 16º andar, o apresentador Amaury Jr., cobrou: Amaury,
você ainda não fez colonoscopia neste ano!, referindo-se ao exame
usado para diagnosticar tumores.

Um comentário:

  1. fantastica, Faço Protocolo com Dra Angelita Há 2 anos e meio. Ela passa uma segurança e toda vez que volto para Brasília me sinto renovada,a ultima vez que estive ela falou Melhor é impossível, é como tivesse renascido é muito bom ouvir essa frase. Parabéns Dra Angelita

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