quarta-feira, 13 de maio de 2015

UMA PELEJA...

A PELEJA DE LEANDRO GOMES COM UMA VELHA DE SERGIPE – Leandro Gomes de Barros
PELEJA
Eu ainda estava orelhudo
Com estes versos que faço
Porque nunca achei poeta
Que me fizesse embaraço
Porém uma velha agora
Quase me quebra o cachaço
A velha fez-me subir
Onde nem urubu vai
Andei numa dependura
Já está cai ou não cai
Ainda chamei tio o gato
Tratei cachorro por pai
Quando partiu foi babando
O corpo vinha tremendo
Antes de dar boa noite
De longe me foi dizendo:
“Meu amigo eu venho metê-lo
Entre um quente e dois fervendo”
Eu sei que o senhor é duro
Eu cá sou da mansidão
Porém só pode salvar-se
Se eu lhe der a certidão
Pois o boi na terra alheia
Até as vacas lhe dão
Eu andava nos meus negócios
No estado de Sergipe
Uma noite me hospedei
Em casa de um tal Felipe
Aonde havia uma velha
Da serra do Araripe
Disse-me o dono da casa:
— Eu aqui tenho um colosso
Uma poetisa velha
Que dá em poeta moço
Quem faz verso nesta terra
Está hoje comendo grosso
Eu disse: — Senhor Felipe
Garanto a vossa mercê
Que neste planeta terra
Não há mulher que me dê
O velho olhou para mim
E perguntou-me: — Por quê?
E disse: — Digo-lhe já
Moleque não me dá vaia
Parola não me intimida
Nem pabulagens me ensaia
E nas unhas dessa velha
Não há duro que não caia
Disse o velho: — Sr. Barros
A velha é prova de fogo
Discute com qualquer um
E não precisa de rogo
Eu disse: — Traga ela cá
A boca é quem faz o jogo
O velho Felipe disse:
— Venha cá dona Manhosa
Se apronte para ver
A questão mais perigosa
A velha de lá soltou
Uma risada gostosa
A velha disse: — Já vou
E com pouco mais saiu
Então chegando na sala
Torceu a cara e cuspiu
Sentou-se num banco velho
Tomou tabaco e tossiu
Eu quando vi a marmota
Alta, seca e carrancuda
Tirar-me uns olhos cinzentos
Se conservando sisuda
Eu disse com meus botões
Não há santo que me acuda
Então perguntou ali:
— Felipe para que me quer?
Chamou-me com tal vexame
Que nem aprontei-me sequer!
— Para mostrar-lhe o escritor
De peso de uma mulher
A velha cravou-me a vista
E fez um calcarejado
Olhou-me de baixo acima
Botou os quartos de um lado
Rosnou e partiu a mim
De chapéu de sol armado
Chegou e disse: — Sr. Barros
Eu desejava encontrá-lo
Porque pelos seus escritos
Não deixo de censurá-lo
Só quem não tem consciência
Deixará de criticá-lo
Eu disse: — Minha senhora
São os revezes da sorte
O gênio tem dois destinos:
É um fraco e outro forte
Uns blasfemam contra a vida
Outros aplaudem a morte
Perguntou ela: – Por que?
Fala o senhor de mulher?
Não aprendeu desculpar
As faltas que uma tiver?
Nem a sua própria mãe
Você não ira sequer
Respondi: — Minha senhora
Isto não quer dizer nada
Eu não falo sobre a honra
De uma donzela ou casada
Digo apenas, a mulher
É uma carga pesada
Ela suspirou e disse:
— Fique certo meu amigo
Que para qualquer mulher
Casamento é um perigo
Casar-se com certos homens
Não dar-se maior castigo
Eu disse a ela: — Colega
Você pode calcular
Uma mulher fica em casa
O homem vai trabalhar
Com o suor de seu rosto
Ganho para ela estragar
A velha disse: — Não há
Marido sem mau costume
Quando não é cachaceiro
É vadio e tem ciúme
Nestas condições assim
Não há mulher que se arrume
Eu disse: — Minha senhora
O homem é um inocente
Trabalha para viver
Até morrer ou ficar doente
Ela que fica em casa
Estraga danadamente
Sai logo de madrugada
Vai ao campo trabalhar
A mulher fica deitada
Sem nada a incomodar
De nove para dez horas
É que vai se levantar
A velha diz isto assim:
— É coisa que não convém
Quem trabalha o dia inteiro
Há de descansar também
A mulher não é de ferro
Nem escrava de ninguém
— A senhora fique certa
O que digo é com razão
A mulher geme sem dor
E gesta sem precisão
Casamento é para o homem
É ascarosa prisão
Disse a velha: —- Meu senhor
Não há marido que sirva
Por melhor que a mulher seja
Trabalhadora e ativa
Ele traz a vista nela
É capaz de a comer viva
Eu disse: — Minha senhora
Marido nenhum faz isso
Sacrificar-se por ela
Isso é claro e bem visto
Ela diz com seus botões
Carrego a madeira, Cristo
Disse a velha: — Vossa mercê
Não parece ser casado
Se achou mulher que coisse
Eu lamento o seu estado
Como também me parece
Que o senhor foi enjeitado
Eu aí pensei um pouco
E disse com meus botões:
Essa cabra velha tem
Miseráveis expressões
Agora me deu o título
De filho de dez tostões
Disse a velha: — Porque acha
Pesado assim a mulher
E diz que é um animal
Que nele não há mister
Só por ela lhe pedir
O que em casa não tiver?
Levanta que a mulher pede
Verdura, fruta e toucinho
Banha, massa de tomate
Alho, pimenta, cominho
Se não pedir ao marido
Há de pedir ao vizinho?
O senhor diz que a mulher
De todas formas atrasa
Porque o pires quebrou-se
O bule largou a asa
A chaleira está velha
No fogo fura-se e vaza
Não querendo despesa
Procure um jeito qualquer
Faça de uma cuia um prato
E de um espeto talher
Deixe de comprar fazenda
Viva nu com a mulher
Eu disse dentro de mim
O que serpente assanhada
Qual seria a cascavel
Quem pariu essa danada
Fiz logo sinal da cruz
Disse: votes excomungada
Lhe disse: — A senhora sabe
Que a mulher é uma cruz
E sofre mais do que Cristo
O marido que a conduz
É um cego no deserto
Vaga sem guia e sem luz
Disse ela: — E a mulher
A que ponto vem chegar?
Haverá maior sentença
Do que uma se casar?
Só ela pensa no genro
Que a mãe tem que suportar
Eu disse: — Minha senhora
Ainda não ouvir dizer
Que um genro neste mundo
Fizesse a sogra sofrer
Só esse nome de sogra
Faz ele todo tremer
A velha disse: — O senhor
É muito livre em falar
Põe defeito em quem criou
Uma filha para te dar
Você agradece tanto
Quem paga em maltrator
O senhor chora a despesa
Que com a família tem
Para que foi se casar?
Não obrigou ninguém
A mulher está na razão
De fazer queixa também
Ele vai para o trabalho
Volta a hora que quiser
Deixando com que em casa
Pode ordenar a mulher
E escolher da cozinha
A comida que quiser
Vem cansado chega em casa
Deita-se e vai descansar
Ela vai para cozinha
Fazer almoço e jantar
Depois da mesa está posta
A mulher vai o chamar
Acorda-o com muito jeito
Trata-o com muito carinho
Diz o jantar está pronto
Vamos jantar meu negrinho
Eu esperei por você
Você não janta sozinho
Me diga agora senhor
O que quer que a mulher faça
Além de criar a família
Suportar mais a desgraça
Ter um marido vadio
Que jogue e beba cachaça
Quando no fim da semana
Vai o homem fazer a feira
Gasta o dinheiro das compras
No jogo e na bebedeira
A mulher passando em casa
Com fome a semana inteira
Porque ele não traz nada
A pobre infeliz não come
Se os pais não morassem perto
Ela teria que passar fome
Pois o marido lhe trouxe
Cachaça, empurrão e nome
Eu pergunto-lhe: — A senhora
Teve em algum tempo marido?
— Tive quatro disse ela
Cada qual mais atrevido
Ainda dou graças a Deus
Eles já terem morrido
Eu disse: — Minha senhora
Eu quero lhe confessar
Infeliz de um desses quatro
Que chegasse a escapar
Os sofrimentos de todos
Qualquer pode calcular
Ela disse: — Sim, senhor
No brando o senhor se estende
Não venha com panos mornos
Aonde tem quem entende
Quem por si julgar a mim
Já vê que assim não me ofende
Eu não fui tão mal casada
Como senhor. está pensando
Tive poucas desavenças
Sempre estava tolerando
Tive muita paciência
Meu gênio sempre foi brando
Mas meu primeiro marido
Fez-me demais esta assim:
Para casar-se com outra
Tencionava me dar fim
O segundo envenenou-se
E não era o mais ruim
O terceiro desgostou
Por eu não ser muito alva
Dizia sempre por fora
Que eu o envergonhava
Sabe o que fez uma vez?
Quis me vender como escrava
O quarto era homem sério
Dizia ser bom marido
Esse só faltou fazer-me
Beber chumbo derretido
Roubou-me para jogar
Sapatos, xale e vestido
E assim mesmo o senhor
Só se refere à mulher
Contar as faltas do homem
Isso o senhor não quer
Eu tenho lembrança
Digo tudo que um tiver
Eu disse: — Vossa mercê
É uma fera no campo
Bafejo de sua boca
Onde bater tira o tampo
Seu pensamento é a cólera
E sua língua sarampo
Disse a velha: — Sim senhor
Você gosta de ferir
Agrava a quem não lhe ofende
E pode até lhe servir
E desses que quer dizer
Porém não gosta de ouvir
Então eu lhe perguntei:
— Já acabou de falar?
— Não principiei agora
Inda tenho o que falar
Eu sou velha neste mundo
Não ando por ver andar
Eu disse: — Também sou velho
Sou corrido e traquejado
Eu tenho visto as misérias
Que no mundo tem se dado
E milhares de mulheres
As manhas têm me ensinado
Uma mocinha solteira
Dana-se para namorar
Com mesuras e carinhos
Faz o homem se levar
Para iludi-lo, chora
E sorri para o matar
A mulher é o objeto
A quem eu quero mais bem
Não há quem conte as maldades
Que a mulher consigo tem
Todos acreditam nela
Ela não crê em ninguém
Então a velha me disse:
— O homem é malicioso
Entre os homens verdadeiro
Tira-se o mais mentiroso
Cheio de sofismações
Impuro pecaminoso
Quando a velha se calou
Que deu-se fim à contenda
Eu disse: Só no inferno
Se achará desta fazenda
Foi o diabo sem dúvida
Que mandou-me esta encomenda
Eu ainda não tinha achado
Quem fizesse eu me calar
Mas a demanda da velha
Fez até eu me engasgar
Botou-me em cantos tão feios
Que eu não julguei mais voltar
Quando foi no outro dia
Arrumei-me, fui embora
Com medo que a tal serpente
Tornasse a vir cá fora
Jurei não voltar mais
Aonde o tal diabo mora.

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