quarta-feira, 3 de agosto de 2011

DESABAFO DO VELHO CANTADOR AOS 82 ANO...S...

PINTO DO MONTEIRO...

PORQUE DEIXEI DE CANTAR

Deixei porque a idade
Já está muito avançada
A lembrança está cansada
E o som menos da metade
Perdi a felicidade
Que em moço eu possuía
Acabou-se a energia
Da máquina de fazer verso
Hoje vivo submerso
Num mar de melancolia
* * *
Minha amiga e companheira
Eu embrulhei num molambo
Pego nela por um bambo
Para tirar-lhe a poeira
Hoje não tem mais quem queira
Ir num canto me escutar
Fazer verso e gaguejar
Topar no meio e no fim
Cantar feio, pouco e ruim
Será melhor não cantar.
Não foi por uma pensão
Que o governo me deu
Porque o eu do meu eu
Não me dá mais produção
Cantor sem inspiração
Tem vontade e nada faz
Afinal, sou um dos tais
Que ninguém quer assistir
Nem o povo quer ouvir
Nem eu também posso mais.
* * *
Com a matéria abatida
Eu de muito longe venho
Com este espinhoso lenho
Tombando na minha vida
Tenho a lembrança esquecida
Uma rouquice ruim
A vida quase no fim
A cabeça meio tonta
Quem for novo tome conta
Cantar não é mais pra mim.
* * *
Se ninguém envelhecesse
Eu não estava aonde estou
Velho, doente, acabado
Sem saber pra onde vou
Toda alegria que tinha
Veio o tempo e carregou.
* * *
Poeta é um passarinho,
que quando tá na cadeia,
sua pena fica feia,
sente saudade do ninho,
do calor do filhotinho
da fonte da imensidade,
se come deixa a metade
da ração que o dono bota
se canta esqueçe a nota
da canção da liberdade.
* * *
No dia que eu tenho raiva
o vento sente um cansaço
o dia perde a beleza
a lua perde o espaço
o sol transforma-se em gelo
cai de pedaço em pedaço.

* * *
Mote:
O carão que cantava em meu baixio
teve medo da seca e foi embora.
Se em janeiro não houver trovoada
fevereiro não tem sinal de chuva
não se vê a mudança da saúva
carregando a família da morada
só se ouve do povo é a zuada
pai e mãe, noivo e noiva, genro e nora
homem treme com fome, o filho chora
se arruma e vão tudo para o Rio
O carão que cantava em meu baixio
teve medo da seca e foi embora.
* * *
Eu só vim a esse mundo
Pensando que ele era lindo.
Se soubesse que era assim
Talvez não tivesse vindo,
Mas já que vim, vou ficando
Que é pra ver como é que findo.
* * *
Mas eu sou como lacrau
que do lixo se aproxima
vivendo da umidade
se alimentando do clima
para ver se um besta assim
chega e bota o pé em cima
* * *
Você bebe até veneno!
Seu pai é bom troaqueiro,
Manoel ,um ébrio afoito
Vive apanhando em Monteiro!
Quem tem uma corja desta
Não fala de cachaceiro.

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