quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

– T. S. Eliot
t-s-eliot
Na quietude verde de mangueiras amigas, encerremos a semana com a palavra universal de T. S. Eliot. Um trecho de Dificuldades de um estadista.
“Incógnito na imobilidade do meio dia,
No silêncio da noite que coaxa.
Cheguei no frêmito das álulas do morcego,
No tíbio lampejo do pirilampo ou do lampírio.
Subindo e caindo, coroadas de pólvora, as pequenas criaturas,
As pequenas criaturas ciciam impressentidas sob a pólvora,
Tremeluzindo noite adentro.
Ó mãe
Que deverei gritar ?
Solicitamos uma comissão, uma comissão parlamentar, uma comissão de inquérito.
RENÚNCIA RENÚNCIA RENÚNCIA.”


VERSOS – Florbela Espanca

Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma.
Versos!… Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!… Sei eu lá também que são…
Sei lá! Sei lá!… Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez…
Versos! Versos! Sei lá o que são versos..
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!…

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

UMA PARÁBOLA....




              Certa manhã, uma gaiola acordou e percebeu que, por distração, deixara a porta aberta e o pintassilgo que vivia nela tinha desaparecido. A gaiola sentiu um vazio enorme em suas entranhas, e a solidão a entristeceu. Sentiu saudade do canto do passarinho.
Na manhã seguinte, ao ver que aquele mal-agradecido não voltava, começou a se mexer para distribuir as sementes e migalhas de pão duro que havia em seu interior e, assim, espalhar o cheiro da comida.
A primeira a chegar foi uma grande gaivota. Ela começou a espiar o chão da gaiola cheio de comida espalhada. A gaiola, ao ver aquele pássaro desagradável, abriu e fechou a porta bruscamente, dando dois safanões na gaivota, espantado-a.
Logo depois, apareceu um periquito que desprezou o alimento porque preferia pão macio.
Depois foi a vez de um pardal. O passarinho entrou na gaiola e, quando a porta se fechou e ele percebeu que estava preso, começou a piar lastimosamente. A gaiola abriu a porta para deixá-lo escapar, pois se lembrou que os pardais morrem de tristeza ao se verem privados da liberdade.
O pardal, agradecido, fez um acordo com a gaiola: viria todos os dias, junto com os amigos, para lhe fazer companhia, e se refugiaria nela nos dias de chuva.
A gaiola nunca mais ficou sozinha e descobriu que o amor consiste em respeitar a liberdade dos demais.

ESCUTANDO CÍCERO...



Qvosque tandem abvtere, Catilina, patientia nostra?
          (Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?)
Até quando, Catilina, abusarás
da nossa paciência?
Por quanto tempo a tua loucura há de zombar de nós?
A que extremos se há de precipitar a tua desenfreada audácia?
Nem a guarda do Palatino,
nem a ronda noturna da cidade,
nem o temor do povo,
nem a afluência de todos os homens de bem,
nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado,
nem a expressão do voto destas pessoas, nada disto conseguiu perturbar-te?
Não te dás conta que os teus planos foram descobertos?
Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem?
Quem, dentre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, onde estiveste, com quem te encontraste, que decisão tomaste?
Oh tempos, oh costumes!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

VATES POPULARES...

Valdir Teles

Rapaz que não quer casar
Tem na orelha um brinquinho
Tem mais um reboladinho
Que é pra impressionar
Deixa uma mão pendurar
E aquele sinal da mão,
Tem biquine e não calção,
Meu Deus, assim é viado!
Isso é Quadrão perguntado
Isso é responder Quadrão

João Lourenço

Macho que dorme com macho
Não tem nem o que dizer,
Num dá pra gente entender
E a mão trabalhando em baixo
Um grande defeito eu acho
Dois bicudos num colchão
É Maria em vez de João
Um é louco, outro é viado
Isso é Quadrão perguntado
Isso é responder Quadrão

* * *

Lourival Batista e Pinto do Monteiro

Lourival Batista

Isso foi naquele tempo,
Quando você era macho.
Porém, um cabra valente
Passou-lhe o facão por baixo,
Que o sangue correu na perna
E o gato comeu-lhe o cacho.

Pinto do Monteiro

Por isso é que me rebaixo
Em cantar com cabra bruto,
Pois, quando correu a notícia
De que eu perdi esse fruto,
Sua mãe chorou de pena
E nunca mais tirou o luto.


* * *

Sebastião Dias e Raimundo Caetano

Sebastião Dias

Eu preciso deixar nesse momento
esse mar que a gente se inspira,
e a casa chamada Caipira,
pra chamar o poeta Nascimento,
ele aqui vai fazer o lançamento
e cumprir o que estava no seu plano,
com apoio de Deus , o soberano,
o seu livro LASCADO DE SAUDADE,
o seu sonho tornou realidade
Nos dez pés de martelo alagoano.

Eu preciso deixar nesse momento
esse mar que a gente se inspira,
e a casa chamada Caipira,
pra chamar o poeta Nascimento,
ele aqui vai fazer o lançamento
e cumprir o que estava no seu plano,
com apoio de Deus , o soberano,
o seu livro LASCADO DE SAUDADE,
o seu sonho tornou realidade
Nos dez pés de martelo alagoano.

Raimundo Caetano

Eu procuro esconder a minha dor,
com os versos da mente quando eu faço
e através de uma luta sem fracasso,
eu me torno na arte um vencedor,
se eu nasci um poeta cantador,
procurando vencer a cada ano,
de novato passei a veterano,
se faltar quem me escute, eu vou parando,
e se tiver quem me ouça, eu vou cantando
Nos dez pés de martelo alagoano.

* * *

Sebastião da Silva e Ismael Pereira

Sebastião da Silva

Geraldo é o nosso irmão,
que gosta de cantador,
quer que a gente fale agora,
com expressões de amor,
implora em certa distância,
para cantar sua infância
como foi no interior.

Ismael Pereira

Ele no interior
teve uma infância bela,
subia em pé de mamão,
tirando pau de cancela,
bebendo água de poço,
andando em jumento em osso,
porque não tinha uma sela.

Sebastião da Silva

Teve uma infância singela,
cuidando dos animais,
nu de cintura pra cima
naqueles seus arraiais,
descendo e subindo serra
e punhado de terra
jogava dos pés pra trás

Ismael Pereira

Geraldo tempos atrás,
residindo na terrinha,
se quisesse melancia,
assim pela manhãzinha,
pra ver a barriga cheia,
roubava na roça alheia,
porque na dele não tinha.

Sebastião da Silva

Corria atrás de galinha,
e pegava tanajura,
bebia o leite de casa
e quebrava rapadura,
quando o sol mostrava o brilho,
abria boneca de milho,
pra ver se estava madura.

Ismael Pereira

Caçava na mata escura
rolinha, tejo e sibita,
comia cuscuz com fava,
bebia chá de marmita,
escorregava em ladeira,
caçava de baladeira,
e assediava cabrita.

Sebastião da Silva

Teve uma infância bonita
cheia de amor e fé,
pôs algodão no sapato,
para dar certo no pé,
quando mijava na rede,
pendurava na parede,
pra sua mãe não dar fé.

Ismael Pereira

Sem o chinelo no pé,
andava de pé no chão,
dormia em rede rasgada
ou em paiol de algodão,
se curava de jalapa
e matava mocó de tapa,
pra temperar o feijão.

Sebastião da Silva

Ele tem recordação
da sua antiga divisa,
do seu primeiro sapato,
sua primeira camisa,
e um forró longe da praça,
que bebeu muita cachaça,
quase levava uma pisa.

Ismael Pereira

Ele tinha a cara lisa
no tempo de inocente,
viu mulher tomando banho,
fez isso principalmente
num poço que ele encostava,
nem a mãe dele escapava,
quanto mais a mãe da gente.

domingo, 13 de dezembro de 2015

A LITERATURA DE VALÉRIA PIMENTEL...

Lentamente estou envelhecendo 
Seguro- me , sem me deixar penetrar ,mais profundamente neste tempo de vida .Sinto a estranha sensação de que metade de mim está vivendo em outra parte do mundo . Sou duas metades distintas ; a material e a espiritual. 
Minhas dimensões espirituais são infinitas . São elas que me sustentam nos sonhos do amanhecer .Jà minhas dimensões materiais me impulsionam para o poente banhando a minha face de lágrimas que escorrem pelo meu corpo sem o poder de rejuvenescê - lo. 
Tenho que ser forte para aceitar esse encontro com as mudanças , pois , vagarosamente, a máquina do tempo está me transformando , 
Aproxima - se a hora da reflexão . 
Minha sensibilidade , ferida em todos os ângulos ,se torna hábil em reunir diversas forças . Força para enfrentar os ventos que sopram força para procurar tesouros dados como perdidos.
Empreendo essa viagem, deixando para trás o sino que tange, a canção que se perde e as árvores desfolhadas em seu abandono . 
Meus ombros haverão de suportar o peso do mundo e o meu coração não estará tão insensível que não possa sentir as boas sensações da minha nova idade. Uma idade que será, inevitavelmente povoada de recordações . Será um tempo de lembranças e contemplaçóes . Deslizando por ele , sinto que enfrento um desafio mas tentarei aceitá- lo, não como uma luta ou combate ,mas como um prêmio. 
Muitas portas estão fechadas mas muitas janelas se abrirão.Através delas poderei ver que são muitos os caminhos ainda a percorrer. Minha palavra será de sabedoria para orientar quem me procure. Será de compreensão e de perdão porque não haverá mais tempo para lutas e ódio. Meu carinho será mais leve, mais suave e minhas lágrimas serão menos salgadas . 
Terceira idade -- vida difícil . Ninguém conhece melhor os efeitos da ausência da juventude do que quem a está perdendo . A melancolia invade o meu coração diante das ameaças da velhice. Em certos momentos até me sinto morta. Uma morte tão complexa que, algumas vezes , morro de tristeza e, outras vezes morro de amor . 
É um triste espetáculo que presencio no meu espaço interior.Meus estímulos estão adormecendo diante do desamparo da juventude. 
Na realidade do dia-a-dia há um grande abismo que consome, sem rodeios,a minha alegria de viver. O cotidiano da minha nova idade dissolve o meu ânimo, robustece a minha insatisfação, fortalece as minhas crises existenciais e me presenteia traumas. 
Sou levada pela correnteza da vida. Falta-me energia para mudar o curso pois vivi uma vida em compasso de espera e hoje o que encontro é um tempo que termina. Esqueci que a vida tem prazo previsto. Não há tempo para procurar destino .
T. S. Eliot. 

Um trecho de Dificuldades de um estadista.

“Incógnito na imobilidade do meio dia,
No silêncio da noite que coaxa.
Cheguei no frêmito das álulas do morcego,
No tíbio lampejo do pirilampo ou do lampírio.
Subindo e caindo, coroadas de pólvora, as pequenas criaturas,
As pequenas criaturas ciciam impressentidas sob a pólvora,
Tremeluzindo noite adentro.
Ó mãe
Que deverei gritar ?
Solicitamos uma comissão, uma comissão parlamentar, uma comissão de inquérito.
RENÚNCIA RENÚNCIA RENÚNCIA.”