quinta-feira, 26 de março de 2015

A CONCEIÇÃO DE MURILO...




A CONCEIÇÃO DE MURILO
(Dom Augusto Álvares da Silva)
I
Já não era criança
Um maranhal de fios
Grisalhava-lhe a fronte
Cismadora e rude,
Onde uns olhos profundos,
Tépidos, sombrios,
Punham tom de mistérios,
Indícios de virtude!
II
Desde muito era visto
Andar pelas esquinas,
A olhar curiosamente
A turba circunstante,
E, até fazer parar
Moças e meninas
Pra mirar-lhes de perto
As linhas do semblante!
III
Teria enlouquecido?
O rei crente e piedoso
Ordenara-lhe um dia
Desse execução
Ao seu desejo ardente.
Um quadro primoroso
A cópia mais fiel
Da Imaculada Conceição!
IV
Por isso é que ele andava
Inquieto, apreensivo,
Fitando a todo o mundo,
Olhando a toda gente,
Pra ver se achava enfim
Caracterizada e vivo
Modelo ideal
Que brinca-lhe na mente!
V
Esta? Não serve.
Aquela? Causa pena vê-lo
A angústia em que se agita
Sua alma torturada,
Por não achar nenhures
pálido modelo.
Que possa traduzir
Esta alma imaculada!
VI
Junto às prisões do estado,
Em pedra humana e fria,
das ruas de Madrid,
O sol ia já posto.
Uma pobre menina,
Em prantos, escondia,
na noite do seu véo
a aurora do seu rosto!
VII
Murilo aproximou-se
Delicadamente:
Por que choras assim?
Levanta-te, sê forte!
Ela volveu-lhe o rosto,
E disse simplesmente:
Meu pai está preso ali
Está condenado à morte!
VIII
Ao contemplar desnuda
a fronte peregrina,
Artista, ele estaca,
E arrebatado vai
Tomando-a pela mão
Dizendo-lhe: menina, vem comigo,
E eu livrarei teu pai!
IX
Meu pai, senhor, é mouro,
E o rei que nos persegue
É bárbaro, é cruel,
apesar de ser cristão.
Dos nossos, nem um só
Que foi-lhe entregue
Senão para morrer
Saiu desta prisão!
X
Menina, vem comigo,
E eu juro: a liberdade
Será dada a teu pai,
Herege ou criminoso.
O rei que dizes mau
E afeito a crueldade,
Tem o sangue espanhol
Ardente e generoso!
XI
Vem! Vamos daqui!
Partamo-nos depressa
Que teu pai será livre!
Esta esperança é um fato!
Porque o rei cumprirá
Fiel sua promessa
De dar-me o que eu pedir,
Em troca de um retrato!
XII
Sim, O REI prometeu
Se eu lhe pintasse a gosto
A Conceição sem mandra
Espórtula avultada.
E, criança, tu tens
Nos traços do teu rosto,
Os traços mais fiéis
De uma alma imaculada!
XIII
Anda! pois, e ela foi...
O artista satisfeito
Tem-na diante de si.
A vasta cabeleira em ondas
Soltas, o olhar fitando o céu,
As mãos em cruz no peito,
E aos poucos murmurando:
Então, meu pai não volta?
XIV
Quando tudo acabou,
Nervosamente ufano
Tomou-a pela mão
E alteando a vóz lhe disse:
Agora, vem comigo.
Ouviste? O soberano
Prometeu pagar-me
O preço que eu pedisse.
XV
Quando chegaram lá,
Era o palácio em festa.
Clero, nobreza e povo,
A fina flor da Espanha
A uma mera exposição
de um quadro novo.
Empresta a rodo ali
Solenidade estranha!
XVI
Ia-se inaugurar
A Virgem de Murilo,
Quando um oh de repente
Em meio à sala estoura!
Estava junto ao pintor
Impávido, tranquilo,
Inquieta e perturbada
A pobrezinha moura!
XVII
Nisto ergue-se a cortina
E esplêndido aparece
O retrato fiel
Da moura ali presente.
O olhar fitando o céu
Mimosa boca em prece,
Onde brinca um sorriso
Ingênuo, inocente!
XVIII
Ao correr da cortina
A sala estruge em palmas!
E os olhares se vão da moura à tela.
O rei ao pintor genial
Que assim retrata as almas.
Pede-me quanto quiseres,
Diz, que eu te darei!
XIX
Senhor! Se meu trabalho algum valor alcança.
Se m’o quereis pagar,
Murilo principia.
Então dai liberdade
Ao pai desta criança,
Em honra da beleza
E em honra de Maria!
XX
E as duas portas férreas
Da prisão do estado
Abriram-se par em par.
E da prisão sombria
Viu-se sair liberto
um condenado,
louvando a Conceição
sem manchas de Maria!

quarta-feira, 25 de março de 2015

CHICO XAVIER...



"Nasceste no lar que Precisavas;
Vestiste o Corpo Físico que merecias;
Moras onde melhor Deus te proporcionou,
De acordo com teu adiantamento;
Possuímos os recursos financeiros coerentes com as tuas necessidades,
Nem mais, nem menos, mas o justo para as tuas lutas terrenas;
Teu ambiente de trabalho é o que elegeste espontaneamente para tua realização;
Teus Parente e AMIGOS, são as almas que atraíste, com a tua própria afinidade;
Portanto, teu DESTINO está constantemente sob teu controle,
Tu escolhes, eleges, atrais, buscas, expulsas, modificas,
Tudo aquilo que te rodeia a existência;
Teus pensamentos e vontades
São a chave de teus atos e atitudes,
São as fontes de atração e repulsão na tua JORNADA, vivência;
Não reclames nem te faças de vítima;
Antes de tudo, analisa e observa;
A mudança está em tuas mãos,
Reprograma tuas metas,
Busca o bem e viverás melhor,
Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo
Qualquer um pode começar agora e fazer um Novo Fim."
(Chico Xavier)

A POESIA DE CECÍLIA MEIRELES...



DO MEU OUTONO
O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...
O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
E eu sofro a angustia irremediável da paisagem...
O outono vai chegar... O outono vem tão cedo!
Irão morrer flores e estrelas, como as crianças
Tristes e mudas, que impressionam, fazem medo?
O outono vai chegar... Têm vozes do passado
As horas loiras, a cantarem vagarosas,
Com ressonâncias de convento abandonado...
Vozes de sonho, vozes lentas, do passado,
Falando coisas nebulosas, nebulosas...
O outono vai chegar, como um poeta descrente
Que funerais desilusórios acompanha...
O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...
O outono vai chegar... Neva a nevoa do outono...
E eu sofro a angustia irremediável da paisagem...
Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)

terça-feira, 24 de março de 2015

A POESIA DE AUGUSTO DOS ANJOS...



“As cismas do destino
I
Recife, Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com minha sombra magra,
Pensava no destino e tinha medo!
Na austera abóbada alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia… O calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio alvo.
Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida! (…)”

VERSOS INUSITADOS...



MANCHETES
POR JOÃO ALDERNEY.
Morreu de cirrose alcoólica, o médico
tem intolerância à lactose, o leiteiro
juiz de direito foi preso em flagrante
caiu da estrutura do prédio, o engenheiro
comprou chapa nova o dentista banguelo
o dono do açougue é vegetariano
veículo em chamas, levava bombeiros
é ateu-comunista o pai do franciscano
coveiro, atendido, tem corpo cremado
palhaço do circo está com depressão
é elétrico o carro do dono do posto
sineiro da igreja perdeu a audição
o jóquei não sabe andar de bicicleta
escada ruiu sobre um ascensorista
o guia do cego está com catarata
excede em fedor de cigarro, o florista
o cão atacou domador de leões
é abstêmio convicto o dono do bar 
não teve direito, o advogado, a habeas corpus
na Sena, o cambista enriquece, ao sonhar,
é imberbe e careca o barbeiro da esquina
no Pão de Açúcar, infarta um padeiro
pintor de paredes pichou a escultura
no banco dos réus senta, hoje, um banqueiro
o Padre mexeu, no xadrez, com o bispo
filósofo mata a mulher, infiel
o guarda-noturno não dorme de dia
é irônica a vida… e às vezes cruel!

segunda-feira, 23 de março de 2015

UMA AULA DE MIRANDA SÁ...

   HÁ JUÍZES EM BRASÍLIA ?







HÁ JUÍZES EM BRASÍLIA ?
HÁ JUIZES EM BRASÍLIA ?


MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

Estamos tão desconfiados se temos ou não temos uma justiça boa e perfeita, que gostaríamos de parodiar honestamente a frase do moleiro de Sans-Souci que, disputando uma causa com o rei Frederico II, foi indagado por que enfrentava a majestade; ele exclamou: – “Porque ainda há juízes em Berlim”.
Já contei essa história passada no século 18 no meu artigo “Ivsticia”, porque a frase, conhecidíssima nos meios jurídicos, consagra a retidão da Justiça. É a inteireza de caráter que uma sociedade bem informada espera dos seus juízes. E vale a pena mergulhar na História, quando o direito saía das fraldas do costume, para se impor soberano.
Deve-se a Hamurábi, rei da Suméria, o primeiro conjunto de leis escritas. Está exposto no Museu do Louvre, em Paris. Uma expedição francesa achou-o em 1901 no Irã, inscrito numa rocha de diorito, em 46 colunas de escrita cuneiforme acádica, com 282 artigos em 3600 linhas. Foi traduzido pelo abade Jean-Vincent Scheil.
É bonita a sua apresentação: “Para que o forte não oprima o fraco, para dar direitos ao órfão e à viúva, para fazer justiça ao oprimido.” Um dos seus artigos é famoso no mundo inteiro, a Lei de Talião. “olho por olho, dente por dente.”
Hamurábi pacificou e uniu sumérios e semitas no seu reino, o que levou ao direito hebreu grande parte da configuração jurídica babilônica inserta no Êxodo. Adota várias regras para ordenar o uso de bens, destinação da propriedade agrária e obrigações comerciais nos empréstimos e nas dívidas.
O mais importante no Êxodo é uma regra de ouro destinada especialmente aos juízes: “Não aceite propinas, pois a propina cega as pessoas lúcidas e compromete a causa dos justos; não cometa injustiça nos seus julgamentos; não dê vantagem ao fraco e não favoreça o grande, mas julga com justiça.”
Embora tenha alisado os bancos da velha Faculdade Nacional de Direito não me lembro deste aconselhamento, que deveria fazer parte das matérias ensinadas aos acadêmicos de Direito. Se assim fosse, um advogado ou bacharel, assessorando a presidente Dilma não a aconselharia a defender “acordos de leniência”, com as empreiteiras comprometidas com a roubalheira da Petrobras.
Pega muito mal o (ou “a”) Presidente da República fazer o papel de lobista ou consultor (a) para livrar empresas corruptas e corruptoras. Mesmo sob o argumento (que já não convence ninguém) que é para continuar as “obras” e manter os empregos. Não se precisa de um QI superior para ver nisso cumplicidade.
E o pior de tudo é que isto ocorre principalmente nos setores jurídicos do Planalto, a partir da mais alta hierarquia que é o Ministro da Justiça, que participa do núcleo acumpliciado com a bandidagem empresarial. Segue-se depois o advogado geral da União dando assistência aos petistas envolvidos no assalto. E depois, o tarefeiro na relatoria da CPI da Petrobras, comprometido com as “doações de campanha” – “legais”, diga-se de passagem…
Esta CPI da Petrobras, em sua maioria disposta presumivelmente a levar adiante as investigações, tem sido sabotada pelos deputados do PT comandados pelo relator Luiz Sérgio que procura politizá-la em vez de aplicar o discurso anticorrupção de Dilma, mostrando que a “Lei Requentada” é para inglês ver….
Aos desobedientes “juízes”, ministro Cardozão, AGU Luis Inácio Adams e relator Luiz Sérgio, não aplico o Código de Hamurábi, tampouco o Pentateuco. Vou puni-los com Rui Barbosa:
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

FERNANDO PESSOA...




Regresso ao lar

Semana Álvaro de Campos

Há quanto tempo não escrevo um soneto
Mas não importa: escrevo este agora.
Sonetos são infância, e, nesta hora,
A minha infância é só um ponto preto,
Que num imóbil e fútil trajecto
Do comboio que sou me deita fora.
E o soneto é como alguém, que mora
Há dois dias em tudo que projecto.
Graças a Deus, ainda sei que há
Catorze linhas a cumprir iguais
Para a gente saber onde é que está…
Mas onde a gente está, ou eu, não sei…
Não quero saber mais de nada mais
E berdamerda para o que saberei.
Álvaro de Campos nasceu em Tavira, Algarve, Portugal, e depois se mudou para Glasgow, Escócia, onde foi estudar engenharia. Primeiro mecânica, depois naval. "Quase se conclui do que diz Campos, de que, o poeta vulgar sente espontâneamente com a largueza que naturalmente projetaria em versos como os que ele escreve; e depois, refletindo, sujeita essa emoção a cortes e retoques e outras mutilações ou alterações, em obediência a uma regra exterior. Nenhum homem foi alguma vez poeta assim" afirmou Ricardo Reis em um de seus apontamentos. Álvaro de Campos é um dos mais conhecidos heterônimos de Fernando Pessoa.